quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Vestibular para crianças

O que eu estava fazendo no dia 13 de dezembro de 1968, quando foi decretado o AI-5, que marcou o endurecimento da ditadura? Queria ser professor. Estava fazendo vestibular para a Faculdade de Filosofia. Embora hoje eu seja um empresário, nunca deixei de acompanhar as desditas de uma classe a que, um dia, cheguei a considerar seriamente a proposta de pertencer. A propósito, minha esposa insiste que essa seria a minha verdadeira vocação. Acredito no poder transformador da educação. Na necessidade da escola pública de boa qualidade, gratuita e universal, mas me revolta profundamente o desrespeito com que são tratados os professores no momento. A escola tem de ser aberta, tem de acolher a todos, em especial aos mais carentes, mas isso não quer dizer que aos mestres não cabe impor condições para receber os alunos em sala de aula. Tudo na vida tem limites. 

Minha proposta é bem simples. Antes de ingressar no primeiro grau, todas as crianças deveriam ser submetidas ao vestibular das “palavrinhas mágicas”. Quem souber usar as palavrinhas entra. Quem não souber, papai e mamãe levam de volta para casa e só a trazem novamente quando elas tiverem apreendido. Ficam para o semestre seguinte para uma nova tentativa. Quais são essas palavrinhas mágicas? “Por favor; muito obrigado; com licença; desculpe.” Coisas do gênero. As crianças precisam demonstrar que os pais ou responsáveis a estão educando. Ela precisa mostrar respeito às pessoas que as vão ensinar, elas precisam demonstrar que sabem conviver em sociedade. Estamos, pouco a pouco, dando valor novamente à palavra não. Já é consenso de que não é possível permitir tudo aos filhos. Da mesma forma, nossa ânsia de termos um país sem analfabetismo deixa-nos com a ideia de que temos de ter uma aceitação incondicional da criança. Alguns dirão que, ao fim e ao cabo, só os pequenos terão prejuízo. Negativo. Nossa legislação já permite processar os pais por abandono intelectual (grifo do blogueiro). E, ao final, se for necessário abrir uma exceção: o aluno não poderia passar ao segundo ano sem ser alfabetizado e sem saber as mágicas palavras, do bom convívio social. Que se manifestem os contrários, para que tenhamos o bom debate. 

Luiz Fernando Oderich
Da ONG Brasil Sem Grades


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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E nem desculpas convencem sobre má educação

Mais um problema na realização, na aplicação ou no sigilo das provas do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Há décadas, o vestibular era o terror dos que terminavam o Clássico, o Científico, Técnico em Contabilidade, Secretariado ou Normal, entre outros cursos secundários, para a prestação do vestibular para ingressar em qualquer faculdade, fosse pública ou particular. Pois o Brasil, de lei em lei, de norma em norma, de modelo em modelo não consegue padronizar, aplicar e ter eficiência no Ensino Fundamental nem no Ensino Médio. Como está, tudo indica que o Exame Nacional do Ensino Médio criou mais problemas do que os solucionou. O Enem veio para dar uma oportunidade para os estudantes mais desfavorecidos. No entanto, quem sai bem no Enem também vai bem no vestibular de múltipla escolha, no dissertativo, em redação e em matemática. E quem vai mal no Enem, vai mal em tudo. De tanto forçar a inclusão social artificialmente no ensino, quando a preocupação deveria ser, antes de mais nada, repetimos, o Ensino Fundamental amplo, geral, irrestrito e, muito mais, obrigatório e de qualidade para as crianças do Brasil, o que se observa é um elenco de cotas, exames e avaliações por motivos nem sempre justificados, embora sempre explicados. E nem as explicações têm convencido a opinião pública, menos ainda os alunos que prestam tais avaliações. A diferença de desempenho entre os estudantes em função da faixa de renda é marcante, dolorosamente marcante. Isso é inaceitável no sistema escolar. Estamos medindo o aprendizado com o Enem, com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e com o Sistema de Avaliação da Educação Básica, um problema que deveria ter sido solucionado anteriormente. Há décadas que estamos medindo. Faz muito tempo que é sabido que esses problemas existem. E tudo o que se pratica é medi-los? Não tem sentido. Nenhum problema vai ser resolvido porque ele foi medido várias vezes. Essa é uma distorção do modelo.

O mais triste é que de erro em erro, de fraude em fraude, de desorganização em desorganização a autoestima nacional cai. Simultaneamente, em concursos públicos, futuros profissionais de áreas fundamentais ao Estado pagam para ter acesso às provas de maneira fraudulenta. Que cidadão teremos para exercer tarefas importantes logo adiante? O pior é que está surgindo mais uma explicação para a irresponsabilidade em que se transformou o Enem, que é colocar a culpa nos donos de cursinhos pré-vestibulares, os quais estariam perdendo dinheiro. Claro, antes havia o pavor das provas. Tanto que, há 50 anos, em Porto Alegre, chocou o suicídio de um rapaz que foi reprovado no vestibular e, não aguentando a inevitável frustração da família pela não aprovação para entrar na faculdade preferida, tirou a própria vida. Outros tempos, outro contexto, mas a tragédia ocorreu no bairro Rio Branco. Vamos ter melhores explicações e mais gestão – uma palavra hoje odiada pelos responsáveis pela educação e saúde pública no Brasil. Fazer as coisas bem feitas e de maneira clara, organizada, em todo o País. O Exame Nacional do Ensino Médio em si em uma medida salutar e democrática, desde que bem elaborado e aplicado. Mas temos alguns nem estão aí para a opinião pública.

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=46159 – sítio acessado em 11/11/2010 às 08:32h.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Breve reflexão sobre o conhecimento histórico

O conhecimento histórico tem por características ser inacabado e prescindível.

Inacabado como todo conhecimento científico, mas também por causa dos eventos que analiza e das fontes que utiliza. Os eventos históricos são, por natureza, irreprodutíveis. O historiador os acessa através dos registros legados pelo tempo e suas circunstâncias, assim como pelos agentes históricos, com toda a sua carga de subjetividade inerente. A esta junta-se a do historiador, manifestada em sua metodologia e em sua interpretação. O conhecimento daí advindo pode ser revisado, sob a luz de novos estudos. Em linhas gerais, é assim que se constrói o conhecimento histórico, que pretende refletir, e apenas pode, uma parte da realidade passada, jamais a sua totalidade.

Em face das necessidades dos nossos dias, o conhecimento histórico, principalmente o que diz respeito à história mais recuada, é um artigo prescindível, deslocado para o campo da erudição. Este conhecimento não é pragmático. Porém, o saber histórico nos instrumentaliza de maneira a nos deslocarmos com mais facilidade pela vida, uma vez que nos viabiliza a compreensão da nossa realidade. Enfim, nos potencializa como seres humanos e nos capacita a agir ativamente em nosso cotidiano.

Estas duas qualidades que, inicialmente, parecem desacreditar o conhecimento histórico, pelo contrário, mostram a sua riqueza como ciência estabelecida e instrumento social. Reconhecer a sua natureza não torna a História menos relevante.
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