segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Caos criativo: modo de usar

Nizan Guanaes

Folhapress/Divulgação/JC

Bom dia, 2011. Entramos na década em pleno caos criativo. As mídias sociais evoluíram e agora são só mídia. Todos viramos mídia. Tudo virou mídia. E mídia é um meio condutor. De conteúdo humano. O que é fantástico.
O Facebook divulgou que publicou 750 milhões de fotos sobre o último Réveillon alimentado pelos seus mais de 500 milhões de usuários famintos conseguidos em menos de sete anos de funcionamento. Repito: 750 milhões de fotos que antes iam para uma caixa velha ou uma gaveta agora estão na nuvem para quem quiser olhar.
Como um economista, um político, um publicitário, um artista, um historiador ou uma empresa vai conseguir processar esse compêndio infinito da vida privada, no início do século 21, é um bom problema deles, mas quanta riqueza produzida e registrada.
Ninguém sabe ao certo o futuro do Facebook, mas mesmo assim ele já foi avaliado em US$ 50 bilhões pelo mercado neste início de década. Seu fundador, Mark Zuckerberg, 26, homem de 2010 da revista Time, bilionário mais jovem da história, iniciou um processo de capitalização com o Goldman Sachs tão inovador quanto seu negócio principal.
O Facebook é a cara do hoje. Seu segredo é o segredo da revolução em curso e que a publicidade conhece desde sempre: comunicação. Agora evoluída para conexão.
O Facebook é a cara do hoje porque é a nossa cara. Com suas conexões, permite-nos fazer algo de que sempre gostamos: mergulhar em vidas alheias. E algo que descobrimos adorar: expor as nossas vidas. Aliás, o grau de transparência de algumas pessoas na rede chega a constranger.
A tecnologia atual permite uma comunicação totalmente diferente de tudo o que conhecíamos. Sim, essa evolução é natural e sempre aconteceu. Mas com essa velocidade?
O diário britânico Financial Times, um guia atual para os perplexos, outro dia comparou a evolução da indústria gráfica com a evolução dos leitores eletrônicos. Foram décadas entre a publicação do primeiro livro e a publicação do primeiro índice alfabético de uma obra, uma utilidade fantástica.
Hoje, assim que Steve Jobs e sua equipe lançam uma nova maçã no mercado, milhares de empreendedores começam a criar e a lançar aplicativos para o novo gadget (sorry, mas alguém tem uma palavra melhor em português para gadget?).
Enquanto no século XV precisava-se de décadas para um pequeno salto na indústria gráfica, hoje as revoluções são por minuto. A velocidade está na alma do novo século, e precisamos nos adequar a ela. Capacetes são bem-vindos.
O Napster, site criado para baixar músicas livremente, destruiu de forma fulminante o modelo de negócios da indústria fonográfica global, que poucos anos antes comemorava recordes de vendas.
No processo, varreu do mapa gigantes varejistas como Tower Records e Virgin, templos de consumo cultural no final do século passado, hoje ruínas mesmo com o boom do consumo de produtos culturais via web.
As veneráveis livrarias seguem o mesmo caminho, sitiadas pelo e-livro e pelo e-comércio. Que chegaram para mais do que tudo facilitar e muito a vida dos amantes de livros, é oportuno exclamar diante do eterno choro dos pessimistas/saudosistas.
Isso serve para lembrar que o criativo é naturalmente destrutivo. A única forma de ter esse caos criativo como aliado é entrar no fluxo e inovar. A inovação é ao mesmo tempo mãe e filha da comunicação.
Como escrevi aqui no ano passado: se você pensa que sabe tudo, está obsoleto. Quem diz que sabe tudo sobre o seu próprio negócio está morto. É preciso inovar. Para fazer mais rápido, mais sustentável, mais barato, mais produtivo, melhor.
As ferramentas nunca foram tão propícias e acessíveis. A computação em nuvem oferece a pequenos empreendedores acesso a uma infraestrutura cibernética tão sofisticada quanto ela pode ser.
Aproveitem. Mergulhem. Publiquem. Alimentem. Processem. Lancem sementes. Colham respostas. Colham clientes. Colham amigos.
Empreender é um ato coletivo, e você nunca mais estará sozinho.

Publicitário e presidente do Grupo ABC

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=51653 – sítio acessado em 11/01/2011 às 09:13h.
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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O mercado da saúde e as emergências

A superlotação nos serviços de emergência hospitalar é um fenômeno mundial. Caracteriza-se pelo seguinte: todos os leitos ocupados; pacientes acamados nos corredores; tempo de espera para atendimento acima de uma hora; alta tensão na equipe assistencial que precisa escolher rapidamente entre o mais grave e o menos grave, e grande pressão para novos atendimentos. Este quadro adverte, claramente, sobre o baixo desempenho do sistema de saúde como um todo, e dos serviços de emergência em particular. A superlotação é um indicador de baixa qualidade assistencial. O fenômeno da superlotação atinge tanto os hospitais particulares quanto os que atendem aos beneficiários do SUS. Nos serviços privados, o leigo tende a interpretá-lo como indicativo de qualificação, enquanto nos serviços públicos como indício de deficiência. O problema tem a mesma raiz: baixo desempenho organizacional. Os que amam a ideia de que as dificuldades da assistência à saúde se resolverão pelo livre mercado, ficam paralisados diante de clientes/pacientes com esperas martirizantes em hospitais particulares. Eis uma falha de mercado.

É previsível uma maior demanda de atendimento em determinadas épocas do ano, em determinados dias da semana. Do ponto de vista gerencial a questão é: Que medidas devem ser acionadas para, num primeiro momento, amenizar o sofrimento pela espera da assistência médica e, num segundo momento, corrigir completamente o problema? Na realidade brasileira tem-se uma complexa equação onde o planejamento centralizado de saúde se associa com a lógica de mercado. Quando pende para um lado ou outro, tem-se uma situação perversa onde a demanda que excede a oferta é racionalizada, de maneira grotesca, pela longa e torturante espera em salas abarrotadas de pessoas em sofrimento. A solução do problema da superlotação nos serviços de saúde passa pelo redimensionamento dos serviços de emergência, e consequentemente, dos leitos disponíveis tanto no setor privado quanto no setor público. É enorme o preconceito com os serviços que prestam assistência aos beneficiários do SUS, em benefício dos serviços particulares. No entanto ambos atuam da mesma forma no atendimento aos pacientes que urgentemente necessitam de cuidados. As evidências apontam que tanto o subsistema privado quanto o público se encontram contidos em sua capacidade de responder adequadamente à demanda da população. A solução passa, inexoravelmente, por acordos públicos e privados. Setores públicos e privados, unam-se em prol do alívio do sofrimento torturante nas emergências. 

Antonio Quinto Neto
Médico e dirigente hospitalar

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Ecocidadania e neoindividualismo

Segundo o advogado Christiano Ribeiro, integrante da Comissão de Direito Ambiental da OAB/RS, um dos grandes desafios para o exercício da ecocidadania é a superação do neoindividualismo que assola nossa coletividade emergente. Mesmo que se utilize um discurso social para legitimar projetos desenvolvimentistas nocivos ao meio ambiente, por detrás disso há uma ideologia neoliberal radical de mercado, que reduz a vida a uma mera análise de custos e benefícios, gerando um individualismo sistemático baseado no cálculo das vantagens individuais obtidas dentro de um grupo social, encaminhando os seres humanos ao consumismo, tornado a base antropológica e social da nossa época. Citando Maria José Fariñas Dulces, professora de Filosofia do Direito da Universidade Carlos III de Madri, na Espanha, Ribeiro afirma que esse neoindividualismo possessivo progride e se transforma numa espécie de individualismo de desapossamento, resultando na falta de trabalho, na incultura, na insegurança e na ausência de proteção institucional. O mesmo mecanismo de privação ou desapossamento pode ser aplicado ao equilíbrio ecológico e à qualidade de vida, vulnerados pela dupla consumismo-desenvolvimentismo, que explora nossa incapacidade de valorar bens e interesses difusos, alvará de impunidade para o saquear das futuras gerações.

Esse neoindividualismo está se convertendo numa nova forma de “ética” universal, difundida especialmente pelos monopólios midiáticos, concretizando o que já havia sido anunciado por Thomas Hobbes: o critério da lei do mais forte, que abandona os seres humanos à gestão insegura dos riscos ambientais. E por destruir a dimensão coletiva, solidária e democrática das relações sociais, ele rompe os vínculos de integração e instala os seres humanos numa cultura de consumo e satisfação imediatos, da mesma forma que torna sagrada a competitividade fundamentalista como a base antropológica das relações entre indivíduos e produz uma negação ao diálogo, uma espécie de autismo social de consequências imprevisíveis. Nesse âmbito, fica quase impossível o efetivo exercício da ecocidadania, retirando paulatinamente a legitimidade para a utilização dos instrumentos judiciais disponíveis ao terceiro setor, se este não representar uma verdadeira oposição ao neoindividualismo, desde as suas práticas internas. Para Ribeiro, é em razão disso que as agremiações do terceiro setor ambiental, ao invés de fomentar a cizânia que milita em favor do neoindividualismo antropológico, devem buscar a integração e a educação da sociedade, para que a união ganhe a queda de braço contra o invisible hand que separa para conquistar. 
 
Christian Lavich Goldschmidt 
Jornalista e escritor


http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=47837&codp=1451&codni=3 – sítio acessado em 30/11/2010 às 19:05h.