sexta-feira, 1 de abril de 2011

Direito à felicidade

Projeto de emenda constitucional quer insculpir nos mandamentos da nossa lei maior o direito à felicidade. Maravilha! Sugiro que seja cláusula pétrea. Mas como regulamentar tal dispositivo? Diz o dicionário que felicidade é ventura; contentamento; bem-estar; qualidade ou estado de quem é feliz; bom êxito. Deixo aqui algumas sugestões. Família – a tal emenda deve determinar que todas as crianças tenham uma família. Sem o aconchego familiar não há contentamento nem bem-estar. Educação – esta é a vacina, o antídoto contra uma existência mal vivida. A educação é a base de uma vida com “V” maiúsculo. Sem educação é difícil atingir o bom êxito. Saúde – para aqueles a quem o destino descreveu roteiros fracos e mal acabados para o filme da existência, que não têm o “happy end” no final, mas sobrevivem apenas na sinopse, deve ser obrigatório sofrer e morrer com dignidade. Aguardando atendimento numa cadeira na emergência de um hospital não dá para apresentar a qualidade ou o estado de quem é feliz.

Emprego – que a todos seja dado o direito a um trabalho decente. E que haja a justa recompensa pelo trabalho executado. Sem reconhecimento não há contentamento. Amor – que homens e mulheres conjuguem o verbo amar em todas as pessoas. Que a concordância verbal atinja todos e que seja sempre empregado no plural. Como parágrafo único, acrescento que nos relacionamentos conjugais não haja sujeitos compostos nem sujeitos ocultos. Amar é um modo eficaz de encontrar aventura. Amizade – aqui está a síntese que traduz tudo o que o dicionário diz ser a felicidade. A amizade não é uma questão de ideias políticas, filosóficas, literárias, religiosas, não é um manejo de frases, não é um saber científico. A amizade é o produto direto das vivências, sofrimentos, renascências de cada um num conjunto de muitos. Felicidade, enfim, é o que vivi dia 7 de novembro passado quando, na Feira do Livro, vi tantos amigos e amigas aguardando na fila por um autógrafo meu. Que a todo o povo seja concedida a felicidade que meus amigos me proporcionaram naquele dia.

Anna Maria Petrone Pinho
Advogada e cronista
http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=48554 – sítio acessado em 07/12/2010 às 18:19h.
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quarta-feira, 16 de março de 2011

Educação e professores são a redenção nacional

Os professores sem curso superior no Brasil somam 636 mil nos ensinos infantil, fundamental e médio, ou 32% do total. Em 2007, eram 594 mil. Na questão do ensino temos uma alienação de afeto. Às vezes, temos empatia demais e sentimos dificuldade em tomar decisões difíceis quando precisamos. Há uma unanimidade em Porto Alegre, no Estado e no Brasil, a de que só mudaremos toda a sociedade, nos mais diversos aspectos, se tivermos uma educação qualificada. Para tanto, além dos recursos materiais, como escolas e instrumentos de estudos, bons professores. E mestres, além de qualificados, bem pagos. Isso ninguém discute mais. Frases repetidas à exaustão também fazem parte do cardápio intelectual quando se debate a situação do País, como aquela que diz que é melhor fazer uma escola porque, aí, se estará fechando um presídio. Até então, não exatamente fechando a conta, pois, então, países mais do que desenvolvidos não teriam criminosos nem presídios. E todos têm. É que vestir e formular dignamente um pensamento é mais difícil do que concebê-lo. A educação é a base de tudo. Mas a educação passa pela família. Nas escolas temos livros que quando mais os lemos mais os admiramos. É que são produções substanciais de profundo saber e experiência. Existem professores e educadores e comunicar é sempre um desafio.
Às vezes, os mestres e pais devem usar métodos diferentes para alcançar certos resultados, uma vez que a bondade que nunca repreende não é bondade: é passividade. A paciência que nunca se esgota não é paciência: é subserviência. A serenidade que nunca acaba não é serenidade: é indiferença. Finalmente, a tolerância que nunca replica não é tolerância: é imbecilidade.
Por isso não surpreende quando a Comissão de Educação da Câmara Municipal se preocupa com a falta de professores na rede municipal de ensino. Os brasileiros têm que parar e pensar também um pouco sobre a razão primeira para que tenhamos uma sociedade tão desigual, onde proliferam escroques nos mais diversos setores. Escandaliza e certamente explica, embora nada justifique, quando se sabe que provas para os mais disputados concursos públicos do Brasil são compradas por mais de R$ 160 mil. Isso é o valor de um apartamento ou casa em qualquer cidade do País. Então ficamos sabendo que alguns futuros delegados de polícia, juízes e outros postulantes foram aprovados porque sabiam, antecipadamente, as questões.
Quem compra uma prova de concurso público antes da sua realização é menos vigarista do que quem vende? Quem pede dinheiro, sendo adulto, em sinaleiras e, ganhando alguns trocados, corre para comprar uma pedra de crack merece sempre compaixão ou precisa de tratamento para que não seja o exemplo mais acabado de todos nós como sociedade? Porto Alegre merece ser tão suja, rabiscada, ter destruídos seus equipamentos urbanos da maneira que registramos diariamente? Problema do DMLU e da Smov? Ou, quem sabe, de quem suja, estraga, depreda e não se importa com o coletivo? Enfim, é triste a condição dos bem-intencionados e sábios entre os ignorantes, da mesma forma que os cidadãos probos entre os velhacos.

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=57080 – sítio acessado em 16/03/2011 às 08:39h.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Ao invés de aprovar semianalfabetos, sigamos o exemplo da Coréia do Sul

O Brasil tenta de várias maneiras melhorar a qualidade da educação oferecida nas escolas públicas, desde o Ensino Fundamental até a universidade. Cria índices, provas para avaliação em diferentes níveis e estabelece que os professores devem passar por aperfeiçoamento. Tudo, no fim, em nome do combate à repetência e à evasão escolar.

Apesar de todas essas medidas, uma recomendação do Conselho Nacional de Educação (CNE), aprovada pelo ministro Fernando Haddad nos últimos dias do governo Lula, quer acabar com a reprovação nos três primeiros anos do Ensino Fundamental.

Mas será que a mais recente medida não é apenas um meio de encobrir o que deveria ser feito de outra forma? Não deveríamos estar nos focando em melhorar a qualidade ou em manter os jovens por mais tempo na escola? Ao invés de aprovar todos os alunos, independentemente do que tenham aprendido, deveríamos tomar como exemplo países que até poucas décadas atrás apresentavam péssimos índices educacionais.

A Coreia do Sul seria um bom exemplo de como um país cresce tendo como alavancador a educação. Há 60 anos, a nação asiática estava destruída por uma guerra civil que a dividiu ao meio, deixou um milhão de mortos e a maior parte da população na miséria. Como resultado, um em cada três sul-coreanos era analfabeto. Hoje, oito em cada dez chegam à universidade. Isso não foi feito dando ao aluno a oportunidade de avançar no ensino sem nem ao menos saber ler. Ao contrário, em oito horas de escola diariamente, o segredo está em fazer com que o aluno não passe um dia sem entender a lição.

Lá não houve uma "recomendação" para a não reprovação de alunos, mas uma lei que tornou o Ensino Básico prioridade. Os recursos foram concentrados nos primeiros oito anos de estudo, tornados obrigatórios e gratuitos, como são até hoje. Além disso, bons alunos têm bolsas de estudo e o governo incentiva pesquisas estratégicas. Disso saiu mais um resultado: a Coreia do Sul cresceu 9% ao ano por mais de três décadas.

Outra questão importante é o salário dos professores brasileiros. O piso nacional do magistério, em vigor desde 2008, paga por 40 horas semanais R$ 1.187,00. No caso do Rio Grande do Sul, onde o programa adotado é o de 20 horas, o piso é proporcional, de R$ 593,98. Apesar disso, o básico na categoria no Estado é de R$ 356,00. Lá na Coreia do Sul, um professor ganha o equivalente a R$ 10.500,00 mensais.

Em 2008, a Organização Internacional do Trabalho e a Unesco publicaram um ranking mundial de salários de professores em 38 países. O Brasil (média de R$ 11 mil por ano) aparecia no antepenúltimo lugar, perdendo apenas para Peru (média de R$ 9.500,00 por ano) e Indonésia (média de R$ 3.200,00 por ano). Nossos vizinhos Uruguai e Argentina pagavam uma média de R$ 20 mil por ano.

Neste ano, um estudo da PricewaterhouseCoopers mostrou que, em 2050, o Brasil será a quarta economia do mundo. A previsão é de que, ainda em 2011, o Brasil supere pela primeira vez a França e, em 2013, ultrapasse o Reino Unido, atingindo a sétima posição incentivada pelo mercado doméstico e pela exportação de recursos naturais. E onde fica a educação nisso? O Brasil tem avançado muito em diversos setores, mas deixar todo mundo passar e não assumir a responsabilidade por uma educação de melhor qualidade, com professores melhor remunerados... isso é o Brasil de hoje.

http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=55786 – sítio acessado em 28/02/2011 às 08:55h.
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