Primeiro, cabe explicitar o motivo desta redação. Acredito que as reflexões que se motivam em experiências subjetivas têm relevância, desde que extrapolem a mera opinião e embrenhem-se nos campos da argumentação racional. Este exercício pretende-se um exemplo disto.
O que nos diz a religião cristã? Aqueles que mantiverem uma conduta correta durante a vida serão agraciados por Deus. Como explicar, então, que coisas ruins aconteçam às pessoas boas? Reescrevendo a pergunta: porque as pessoas que seguem os preceitos divinos são tão facilmente prejudicadas? Porque estão tão expostas as malícias de outrem? Porque não são amparadas pelo seu Deus? A resposta imediata: a recompensa para estes não está nesta vida, está além desta. Então pergunto: porque postergar para uma próxima vida a recompensa? Que garantia nós temos da existência desta outra vida? Esta reflexão iniciou-se com uma pergunta subjetiva, cuja resposta é difícil de ser encontrada. É da tentativa de encontrar uma resposta que surgiu este texto.
Muitas vezes ouvi que a devoção a Deus seria a garantia para uma vida digna – entrega-te na mão de Deus e confia! Que as dificuldades que se apresentam seriam oriundas do fato de não professarmos a sua fé. Ouvi, também, que este mesmo Deus é o pai-de-todos, que todos somos irmãos por sermos filhos do mesmo pai. Estranho. Parece-me um tanto seletivo este pai-de-todos e um tanto contraditório. A verdade é que ele só protege (na hipótese de existir) aqueles que o adoram e, portanto, não é pai-de-todos, como se quer fazer acreditar. Um deus que dá suas graças apenas aos que o veneram não me parece muito diferente dos deuses pagãos que tanto os seus devotos combatem em seu nome. Oração, ao invés de sacrifício, apenas. Um deus compreensivo, de compaixão, que sabe o que é melhor para nós. Sabe? Como pode algo ou alguém que se quer temos prova da existência saber o que é melhor para nós, ignorando a nossa opinião? Não me parece muito compreensivo um deus que impõe a sua vontade à dos seus devotos. Não me parece compreensivo um deus que decide o destino da minha vida contra a minha vontade. Parece-me mais um tirano. Ninguém melhor do que eu para saber o que é melhor para mim, o que me satisfaz verdadeiramente, o que confere sentido a minha vida. É inconcebível entregar meu destino a algo ou alguém que não tenho provas da existência. O meu destino será a conseqüência das minhas escolhas. Ou, então, apenas sentarei e esperarei que o destino que me foi traçado aconteça.
Falei em prova de existência. Ponto crucial. Que provas nós temos da existência de Deus? Nenhuma, na verdade. Nenhum de nossos instrumentos investigativos - nosso sistema sensorial e nossa razão - comprovam, concretamente, a existência de Deus. Nenhum desses instrumentos nos fornece uma prova irrefutável da existência divina. Qualquer consideração que não se baseie em argumentos amparados por estes instrumentos é mera especulação. A única “prova” que temos nos é dada por uma crença cega, chamada fé. Acredite e ponto final, ou sofra as consequências. Argumento muito fraco, apelativo e conveniente, para um deus tão poderoso.
Agora trabalhemos com a hipótese de que ele exista. Ainda assim digo que não existe. Se existe um ser sobrenatural que governa as nossas vidas este é a antítese de Deus, cuja denominação cristã é Diabo (apenas uma de tantas). Neste caso, Deus é apenas uma imagem criada pelo Diabo, com o intuito de ludibriar a nossa percepção da realidade. Uma vez que acreditamos em um deus que nos garante, nos conformamos e aceitamos o providencialismo. Manipular a nossa percepção da realidade, para nos inibir a iniciativa e, assim, agir sem oposição. Eis a intenção do Diabo. E faz isso se valendo da imagem de Deus. É fácil sustentar este argumento quando nos damos conta que a regra em nossa vida é a dificuldade, e a facilidade (ou, no mínimo, a não-dificuldade) é a exceção. Quando nos damos conta que a regra é a insatisfação, e não a satisfação. Nada tão verdadeiro como a expressão: “vencer na vida”. O mal, representado pela violência, é recorrente na história humana. É um estado natural de nossa existência. É a luta contra este mal, a instauração de uma ordem não violenta (o bem), o caráter artificial desta existência, portanto.
A religião é uma instituição criada pelo homem (e, conseqüentemente, todos os seus personagens sobrenaturais) com uma função social: conformar e ordenar a natureza humana. Inclusive a religião cristã. O céu é uma projeção da terra, e não o contrário. Quando a religião cristã nos ensina a oferecer a outra face, está nos tirando a liberdade de ação, nos impondo um medo irracional a uma punição oriunda de um deus que não tolera atitudes retaliativas. Ao nos negar o direito de retaliação contra algo que nos prejudica não está nos doutrinando no caminho do bem: está nos subtraindo o direito de defesa, a iniciativa a esta. Ao creditar todas as realizações desta vida a uma outra, está desviando o nosso foco do agora, nos transformando em autômatos conformados, nos tirando a combatividade. Portanto, quando afirmo que Deus não existe, me refiro ao Deus cristão que me apresentaram nas catequeses dos sábados pela manhã. Neste Deus eu não acredito. Não questiono o papel ordenador da religião e até corroboro com este. Questiono a doutrina sobrenatural da religião cristã e sua faceta conformista.
Existe um ser superior, mesmo que não seja este Deus? Não sei. E não vejo razão para tentar descobrir. E, antes que me atirem à fogueira, antes que me apontem o dedo e me acusem de heresia, digo que não deixei de acreditar: acredito em mim e no que posso fazer nesta vida. Não ministre seu tratamento com sentenças como estas: “foi assim porque Deus quis”, “Deus sabe o que faz”, “Deus está guardando algo melhor para o futuro”; são remédios enganosos e mortais. Esta é a minha resposta à indagação que me instigou a reflexão: acredite, antes de tudo, em si e no que pode fazer. E não entregue o seu futuro a um ser abstrato: este futuro apenas será o resultado das escolhas que tu fizeres.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009
segunda-feira, 18 de maio de 2009
"Estou me lixando para a opinião pública"
A frase pronunciada pelo deputado federal Sérgio Moraes (PTB-RS) exemplifica o descaso que nossos pretensos representantes têm para conosco, o desvirtuamento da democracia representativa. É a confissão de culpa.
E a culpa é nossa também, por evitarmos a prática política, ao considerá-la algo chato e que deve ser feita apenas pelos políticos de carreira. O conceito de política "profissionalizada" - entenda-se profissionalizada a atividade que só pode ser exercida por pessoal especializado - nos foi vendido justamente com o intuito de nos afastar da esfera decisória social, delegando aos políticos "profissionais" esta responsabilidade, abrindo o espaço para que estes ajam em prol particular, e não dos interesses daqueles que os elegeram. Olhemos o que diz o dicionário sobre o verbete política:
8. habilidade no trato das relações humanas, com vista na obtenção dos resultados desejados;
9. civilidade, cortesia.
Se política são as relações humanas civilizadas, então praticamos a política a todo o instante, seja no trabalho, na escola, em casa, na rua, seja em qualquer momento e local. Vivemos em sociedade, querendo ou não, e a prática política é inerente ao convívio social. Portanto, se faz necessário que nos atentemos às questões que se colocam neste espaço, que nos posicionemos perante elas e ajamos sempre que pudermos. Ao reconceituarmos e interiorizarmos a política, quebraremos com o status quo de "profissionalização" desta. Esta "profissionalização" nada mais é que o conhecimento específico burocrático, questão que não abordarei aqui. Ao não nos interarmos da política formal, institucionalizada, estamos delegando, realmente, o nosso destino social a terceiros.
A quem recorrer quando nos sentimos lesados por atitudes ilícitas realizadas pelos nossos representantes, e como evitar que isso ocorra? Uma questão que sempre me coloco. A instituição máxima ideal, para tanto, é o Estado. Mas este está corrompido justamente pelos "profissionais políticos", e a sua instância já não é mais garantia de imparcialidade e de defesa dos nossos interesses. Desacredito, também, das manifestações populares e públicas. Não das suas intenções, mas por estas não terem eco nos ouvidos dos nossos representantes, como bem ilustra a frase-título.
Recorro a uma velha e batida solução: o voto. Mas não por ser ele um direito nosso. Ele não o é. Em um país onde se é obrigado a votar, de direito o voto passa a ser coação. Descartando o apelo propagandístico do voto, reconheço nele um instrumento capaz de melhorar este quadro imoral e antiético pintado pelos nossos representantes. Utilizemos a coação do voto a nosso favor.
Mas um instrumento por si só não age, depende de alguém que o manuseie, e bem. Só poderemos manusear o voto com precisão cirúrgica quando reconhecermos a sua importância e real significado. Para isso, é necessário discernimento e conhecimento, instrução, informação, discussão, em suma, educação. Quanto mais esclarecidos formos, mais habilmente utilizaremos o voto. Qualquer ação que vise a promoção da educação, do conhecimento, do esclarecimento, terá meu apoio irrestrito. E não esperemos pela iniciativa de terceiros: promovamos ações individuais neste sentido. Podemos, ainda, fiscalizar as atividades exercidas por aqueles que elegemos. A internet é uma ferramenta que nos possibilita exercer esta fiscalização de maneira prática. Se cada um de nós escolher um representante para fiscalizar, faltarão políticos para tantos fiscais e este trabalho não será tão árduo. E, ao nos depararmos com alguma situação inusitada, não nos esquivemos em pedir esclarecimentos e mesmo em expor publicamente estas situações.
Precisamos reconhecer em frases como a do título a falta de respeito para conosco. Dar vazão a nossa indignação. Participar efetivamente da cena política é de máxima importância para corrigirmos esta desconsideração. Este texto é, na verdade, uma auto-conscientização da relevância desta tarefa.
Recomendo a leitura dos aqrquivos abaixo:
E a culpa é nossa também, por evitarmos a prática política, ao considerá-la algo chato e que deve ser feita apenas pelos políticos de carreira. O conceito de política "profissionalizada" - entenda-se profissionalizada a atividade que só pode ser exercida por pessoal especializado - nos foi vendido justamente com o intuito de nos afastar da esfera decisória social, delegando aos políticos "profissionais" esta responsabilidade, abrindo o espaço para que estes ajam em prol particular, e não dos interesses daqueles que os elegeram. Olhemos o que diz o dicionário sobre o verbete política:
8. habilidade no trato das relações humanas, com vista na obtenção dos resultados desejados;
9. civilidade, cortesia.
Se política são as relações humanas civilizadas, então praticamos a política a todo o instante, seja no trabalho, na escola, em casa, na rua, seja em qualquer momento e local. Vivemos em sociedade, querendo ou não, e a prática política é inerente ao convívio social. Portanto, se faz necessário que nos atentemos às questões que se colocam neste espaço, que nos posicionemos perante elas e ajamos sempre que pudermos. Ao reconceituarmos e interiorizarmos a política, quebraremos com o status quo de "profissionalização" desta. Esta "profissionalização" nada mais é que o conhecimento específico burocrático, questão que não abordarei aqui. Ao não nos interarmos da política formal, institucionalizada, estamos delegando, realmente, o nosso destino social a terceiros.
A quem recorrer quando nos sentimos lesados por atitudes ilícitas realizadas pelos nossos representantes, e como evitar que isso ocorra? Uma questão que sempre me coloco. A instituição máxima ideal, para tanto, é o Estado. Mas este está corrompido justamente pelos "profissionais políticos", e a sua instância já não é mais garantia de imparcialidade e de defesa dos nossos interesses. Desacredito, também, das manifestações populares e públicas. Não das suas intenções, mas por estas não terem eco nos ouvidos dos nossos representantes, como bem ilustra a frase-título.
Recorro a uma velha e batida solução: o voto. Mas não por ser ele um direito nosso. Ele não o é. Em um país onde se é obrigado a votar, de direito o voto passa a ser coação. Descartando o apelo propagandístico do voto, reconheço nele um instrumento capaz de melhorar este quadro imoral e antiético pintado pelos nossos representantes. Utilizemos a coação do voto a nosso favor.
Mas um instrumento por si só não age, depende de alguém que o manuseie, e bem. Só poderemos manusear o voto com precisão cirúrgica quando reconhecermos a sua importância e real significado. Para isso, é necessário discernimento e conhecimento, instrução, informação, discussão, em suma, educação. Quanto mais esclarecidos formos, mais habilmente utilizaremos o voto. Qualquer ação que vise a promoção da educação, do conhecimento, do esclarecimento, terá meu apoio irrestrito. E não esperemos pela iniciativa de terceiros: promovamos ações individuais neste sentido. Podemos, ainda, fiscalizar as atividades exercidas por aqueles que elegemos. A internet é uma ferramenta que nos possibilita exercer esta fiscalização de maneira prática. Se cada um de nós escolher um representante para fiscalizar, faltarão políticos para tantos fiscais e este trabalho não será tão árduo. E, ao nos depararmos com alguma situação inusitada, não nos esquivemos em pedir esclarecimentos e mesmo em expor publicamente estas situações.
Precisamos reconhecer em frases como a do título a falta de respeito para conosco. Dar vazão a nossa indignação. Participar efetivamente da cena política é de máxima importância para corrigirmos esta desconsideração. Este texto é, na verdade, uma auto-conscientização da relevância desta tarefa.
Recomendo a leitura dos aqrquivos abaixo:
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Em busca da felicidade
"Quando se trata de felicidade nada pode ser definitivo".
Começo este post com a frase acima por concordar com o argumento. O conceito de felicidade que utilizamos hoje está relacionado com o âmbito econômico de nossas vidas. Este conceito é fruto do nosso tempo, como todo o conceito o é. A reflexão sobre o que significa, para cada um de nós, o termo felicidade pode ser de grande valia para alcançarmos este estado de espírito, e pode nos ajudar a compreender o contexto de "crise" em que vivemos agora.
Após fugir um pouco do argumento inicial, volto a ele. Concordo que a felicidade não é definitiva e baseio-me em experiências vividas, que me levaram a considerar a satisfação um sentimento muito mais válido, por ser duradouro e constante, em oposição à efêmera felicidade (minha amiga Fernanda não me deixa mentir).
Abaixo está o link para a leitura das reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman, publicadas no caderno Cultura de Zero Hora, no dia 11/04/2009.
Começo este post com a frase acima por concordar com o argumento. O conceito de felicidade que utilizamos hoje está relacionado com o âmbito econômico de nossas vidas. Este conceito é fruto do nosso tempo, como todo o conceito o é. A reflexão sobre o que significa, para cada um de nós, o termo felicidade pode ser de grande valia para alcançarmos este estado de espírito, e pode nos ajudar a compreender o contexto de "crise" em que vivemos agora.
Após fugir um pouco do argumento inicial, volto a ele. Concordo que a felicidade não é definitiva e baseio-me em experiências vividas, que me levaram a considerar a satisfação um sentimento muito mais válido, por ser duradouro e constante, em oposição à efêmera felicidade (minha amiga Fernanda não me deixa mentir).
Abaixo está o link para a leitura das reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman, publicadas no caderno Cultura de Zero Hora, no dia 11/04/2009.
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